O voto da preferência garante a base, o da negação pode eleger

Vamos falar do voto da negação, pois é esse o movimento comportamental que irá decidir o processo eleitoral, para um dos lados ou até mesmo, para uma terceira via.

Por Elis Radmann 09/06/2021 - 10:21 hs

            As pesquisas de intenção de voto que estão sendo divulgadas mostram que há uma tendência de polarização entre os pré-candidatos Bolsonaro e Lula. De forma simplista, alguns analistas somam o percentual de intenção de voto em Bolsonaro com o percentual de intenção em Lula e estimam a fatia de votos que sobraria para o centro ou para uma terceira via.

            Sempre digo que a intenção de voto é o sintoma de um comportamento. O mais importante, é entender o comportamento. No caso em questão, o fenômeno que motiva essa tendência de polarização está associado a duas lógicas: preferência e negação.  

            Os eleitores que intencionam votar em Bolsonaro ou Lula pela preferência, percebem seus ideais, qualidades ou feitos.

No quesito ideais, ambos têm apoio de uma base ideológica mais radical, que faz barulho, movimenta as bolhas digitais e os dois lados possuem haters (que espalham o ódio pela internet). Essa base ideológica “late”, mas não elege.

            Quando se fala de qualidades, propostas ou realizações, os dois candidatos ganham a adesão suficiente para alcançar a marca de quase 1/5 do eleitorado brasileiro, se somar o voto ideológico.

Na percepção dos eleitores, Bolsonaro é visto como um candidato que defende a moralidade, os valores cristãos e da família. É o candidato da segurança pública, que tem o apoio do exército. Naturalmente, é o candidato da antipolítica, “que luta contra as coisas erradas que os políticos fazem e é perseguido por isso”. Bolsonaro também agrada os eleitores que defendem o liberalismo econômico e confiam em Paulo Guedes.

            A preferência por Lula está associada, principalmente, por seus feitos. É o candidato que trouxe a mobilidade social, fez as pessoas crescerem com a “nova classe média” e os seus programas sociais: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Minha Casa Melhor, Prouni, Pronatec, etc. Para esses eleitores, Lula trouxe desenvolvimento econômico, social e cultural para o país. Também é o candidato das minorias, dos excluídos e daqueles que defendem os direitos humanos.

            Em que pese que os gráficos mostrem uma maior tendência de votos em Lula no eleitorado de baixa renda, não se pode dizer que um é o candidato dos pobres e o outro dos ricos. Quando se analisa a preferência de um eleitor de baixa renda por Lula, percebe-se a gratidão por um benefício recebido. Na mesma classe social de baixa renda, pode-se ouvir um eleitor de Bolsonaro o defendendo pela perspectiva de melhora do país, pela moralidade política.

            Vamos falar do voto da negação, pois é esse o movimento comportamental que irá decidir o processo eleitoral, para um dos lados ou até mesmo, para uma terceira via.

            O voto da negação não apresenta argumentos a favor de um candidato, só consegue ver os defeitos do outro. Vota em um, para tentar diminuir a chance do outro. Ou seja, ainda no primeiro turno, quase 10% dos brasileiros podem votar em Bolsonaro para tentar evitar a eleição de Lula e vice e versa.

            Na prática, é como se o voto da negação pudesse decidir a eleição. Se o voto ideológico e o da preferência mantiver Lula e Bolsonaro com uma base de 20,0%, o voto da negação deve se mobilizar e manter cada um dos lados na casa dos 30,0%, colocando-os no segundo turno. Mas não podemos esquecer que esse eleitor que vota por negação sonha com a mudança, basta aparecer um candidato competitivo para que o eleitor da negação redesenhe a história do Brasil.